“Entre Margens” é o título do espetáculo que estreia neste sábado, dia 21 de março, às 20h00, e segue também no domingo, dia 22, às 20h00, no Teatro Lima Penante (Av. João Machado, 67 - Centro - ao lado da Igreja de Lourdes - João Pessoa). A entrada é de graça!
O espetáculo é uma montagem do "Andarilho Coletivo de Teatro" com texto e direção de Marcelo Marques e atuação das atrizes-andarilhas Anna Raquel Apolinário e Naiara Misa. O evento marca o lançamento da mais nova criação do Coletivo, realizado com o patrocínio do Fundo Municipal de Cultura de João Pessoa (FMC/JP).
Entre Margens convida a olhar para as memórias como um território de transformação de si. Em cena, duas mulheres: ora gente, ora bicho; ora uma, ora as duas em uma só. Elas surgem em um espaço vazio onde só há terra — um lugar de passagem, uma linha sem começo nem fim, sem
identidade, sem ecos de outrora. Sob seus pés corre um rio oculto que, ao ser escavado, desfaz as lembranças rígidas que secaram aquela superfície.
Desvelar esse rio que pulsa sob os pés tornase, então, um gesto de transformação: permitir que antigas cicatrizes se dissolvam — morrer em vida para que algo mais primitivo, instintivo e verdadeiro possa finalmente nascer. Inspirada na alegoria grega do rio Lete, em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e no mito amazônico das Icamiabas, a dramaturgia aproxima-se do teatro do absurdo e dos borrões do surrealismo, oscilando entre o real e o fantástico, entre a lucidez e a loucura, entre o estranho e o familiar — até que o sentido se dissolve e abre espaço para as próprias relações do espectador.
Além disso, o espetáculo adota o teatro-físico como estética e processo de criação, fazendo com que a memória corporal expresse aquilo que já não cabe nos limites dos significados. A iluminação surge em cena como um sopro invisível, revelando e escondendo os corpos,
fazendo-os flutuar entre presença e sombra.
O espaço se desenha suavemente, enquanto o escuro e os raios de luz respiram junto às presenças, criando atmosferas que parecem pulsar com o próprio corpo da cena. O cenário é feito de terra — um defeito de chão que exalta o naturalismo cênico e devolve à cena sua matéria primordial. Essa terra se transforma a todo instante, abrindo fissuras para que o espectador caminhe por diferentes paisagens. “No vazio que ela cria, lugares surgem e se desfazem como miragens ao vento”, ressalta a atriz Naiara Misa.
O som, de criação autoral, nasce como uma extensão dos corpos em cena. Para Apolinário, “os ruídos sonoros completam nossas ações no palco. Eles passam por mim, me transformam e fazem com que minha presença se torne também sonoridade, um prolongamento sensível dos meus gestos em cena.” Assim, luz, cenário e som deixam de ser apenas elementos técnicos e passam a agir como extensões das duas intérpretes — uma terceira presença em cena, que afeta a travessia de Naiara e Ana Raquel.
Em um tempo marcado pelo excesso de ruído, pela aceleração da vida e pelo acúmulo de memórias e tensões, Entre Margens propõe uma pausa para olhar para dentro. Ao tocar temas como esquecimento, transformação e renascimento, o espetáculo convida o público a refletir sobre as camadas que carregamos no corpo e na memória, lembrando que, às vezes, é preciso deixar algo morrer para que outras formas de existência possam surgir.

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