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Sábado, 17 de Outubro 2026
O CINEMA CONTA HISTÓRIAS, MAS REALIZADOR É CENSURADO AO DEBATER SOBRE DOCUMENTÁRIO NA UFPB, EM JOÃO PESSOA
Cultura

O CINEMA CONTA HISTÓRIAS, MAS REALIZADOR É CENSURADO AO DEBATER SOBRE DOCUMENTÁRIO NA UFPB, EM JOÃO PESSOA

“Assim como o jornalismo, o cinema conta histórias...E essas histórias podem ser sobre um assassino, um presidente da República, sobre a pobreza ou sobre o amor”.

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“Assim como o jornalismo, o cinema conta histórias...E essas histórias podem ser sobre um assassino, um presidente da República, sobre a pobreza ou sobre o amor”. Foi assim que conclui minha participação, após ser censurado e ter minha fala cortada no debate sobre o meu filme “Letícia” (2025) exibido no último sábado, 10, na I Mostra Paraibana de Cinema de Guerrilha.

A Mostra foi realizada dentro do Campus da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em João Pessoa, local onde deveria predominar o pulsar de ideias e florescer as discussões sobre quaisquer temas, polêmicos ou não.

Ao contrário disso, o que se viu foi uma pessoa da plateia questionar a temática do filme, tumultuar o debate no momento em que a palavra estava com o realizador, demonstrando total falta de respeito e destempero, não se contendo a aguardar o momento em que a palavra seria facultada ao público.

Mais grave ainda foi o realizador do documentário assistir, incrédulo, a organização do evento pedir desculpas a essa pessoa. Pedir desculpas porque uma comissão – repito, uma comissão - assistiu e selecionou o filme para o evento.

Ao longo dos anos e, sobretudo, nos anos mais recentes, já no século XXI, tenho visto vários filmes polêmicos ganharem as telas. São filmes que contam histórias de assassinos brutais, de atos deploráveis, cujos temas viram minisséries, videocasts, ganham as plataformas de streamings e ocupam as salas de cinema.

Os realizadores desses filmes não são assassinos, nem se transformam em assassinos por terem contado suas histórias. Eles são convidados a debater sobre o assunto. Apenas na Paraíba - na Universidade Federal da Paraíba - que tem em seu portifólio cursos de Cinema e de Comunicação em Mídias AudioVisuais, isso é impossível.  Jamais imaginei viver tal situação e com tamanha humilhação na UFPB, Instituição que respeito e onde me graduei em Economia, Comunicação Social (Jornalismo) e Artes Cênicas (Licenciatura) e onde também sou Especialista em Crítica de Arte e Mestre em Sociologia. 

A comissão da I Mostra Paraibana de Cinema de Guerrilha, de forma antiprofissional e humilhante, diz em nota em suas redes sociais que a escolha do filme "Letícia" (2025) foi um erro. E que vai ter todo o cuidado necessário para não cometer mais 'heresias' como esta. Com isso, coloca a insatisfação de uma pessoa na plateia como algo superior ao olhar de toda uma comissão - que, presumidamente, deve ser formada por pessoas da área de audiovisual - e mais importante do que o trabalho do realizador, que está ali para falar sobre o seu filme e, consequentemente, está se dispondo a debater sobre.

O documentário “Letícia” (2025), de Augusto Magalhães, não é um filme que trata de racismo e não faz nenhuma apologia ao racismo ou à injúria racial. O filme conta a história – e uma bela história – de uma atriz paraibana e mostra sua trajetória enquanto artista, desde a infância quando viu um teatro pela primeira vez (o teatro Lima Penante, em João Pessoa) e se inscrever para fazer seu primeiro curso de teatro.

Letícia Rodrigues é uma atriz e diretora  de grande valor artístico. Tem conquistado vários prêmios para o teatro paraibano em festivais pelo Brasil afora.

É uma mulher trans, que enfrentou preconceitos e subiu ao topo do teatro paraibano não apenas como atriz, mas como gestora do Teatro Ednaldo do Egypto, em João Pessoa. Desenvolveu projetos de inclusão e fez o teatro chegar a várias comunidades pessoenses, sobretudo abrindo as portas do teatro para crianças de bairros periféricos ao redor da sede do teatro.

No mês de novembro durante o período em que administrou o teatro, realizou a “Cena Preta”, onde apenas espetáculos dirigidos por artistas pretos e pretas eram apresentados no teatro. Abriu espaço para pessoas pretas na sua Cia. De Teatro.

Foi acusada de injúria racial. O processo chegou à Justiça, já foi julgada e condenada. A obra de Letícia não pode e não deve ser invisibilizada porque ela muito grande no sentido de qualidade do seu trabalho enquanto artista. Todo o passado de Letícia, com centenas de prêmios, não pode ser jogado no lixo.

Nem o passado, nem o futuro! Mas é isso o que as pessoas que pedem igualdade querem. Como as pessoas podem clamar por igualdade se elas querem condenar para a vida inteira quem já teve a sua sentença judicial? É a lei do ‘Olho por Olho, Dente por Dente”? É assim que a geração da igualdade vê a sociedade?

Repito: o filme “Letícia” (2025) não faz apologia ao racismo. Se assim fosse, não teria incluído no seu roteiro a advogada das partes falando sobre o assunto. O diretor é claro quando diz que “o filme mostra a trajetória da artista Letícia Rodrigues e em nada teria prejudicado sua narrativa se omitisse o caso da injúria racial”. Ainda assim, para ser honesto com seu público, fez questão de incluir o assunto da injúria racial quando foi contar a história dessa grande atriz que é Letícia Rodrigues. 

É muito triste perceber que a Universidade Federal da Paraíba, local de tantas batalhas e vitórias culturais, seja palco em pleno século XXI, no ano de 2026, de censura à fala de um realizador de cinema.

*Em tempo: O filme “Letícia” (2025) ainda não está disponível no YouTube, pois está inscrito em outras Mostras e Festivais e precisa ficar como “Não Listado” na plataforma, mas em breve estarei disponibilizando para que todos possam ver com os próprios olhos se são verdadeiras as palavras que descrevo aqui.

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Augusto Magalhães - Cultura & Cotidiano

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