O padrão urbanístico brasileiro enfrenta uma crise silenciosa, caracterizada pela inacessibilidade de vias, a degradação de passeios públicos e a exclusão de grupos vulneráveis. A discrepância entre a oferta de espaços urbanos qualificados e a demanda da população mais carente evidencia desigualdades históricas e limita o direito de uso pleno da cidade.
A promessa de centros urbanos humanos e inclusivos parece cada vez mais distante quando consideramos os fatos comuns à maioria deles: mobilidade urbana que privilegia o automóvel em detrimento do pedestre, calçadas em desacordo com os códigos de obras, bem como em mau estado de conservação, além, é claro, das áreas comuns — como parques — mal distribuídas, desconsiderando o público-alvo e suas respectivas necessidades.
Enquanto o foco do planejamento urbano estatal persiste na priorização dos veículos, os pedestres, ciclistas e pessoas com deficiência lidam com a hostilidade em seus trajetos. A ausência de sinalização adequada, travessias minimamente seguras e calçadas niveladas, por exemplo, compromete o direito de ir e vir do indivíduo, sobretudo das pessoas com mobilidade reduzida, como idosos e cadeirantes, que representam grande parte da população.
Praças, parques e áreas de convivência são os locais que mais necessitam de uma abordagem urbanística cuidadosa, em especial quando situados em regiões periféricas, onde a escassez de espaços planejados não só se faz presente, como contribui diretamente para o isolamento de cidadãos historicamente marginalizados. Esse marco social é reflexo da carência de áreas pensadas para o lazer e bem-estar de quem mais precisa. Não obstante, o acesso à infraestrutura básica tem participação considerável nesse distanciamento; às pessoas sem acesso ao saneamento e às áreas verdes é negado o exercício pleno de sua cidadania, estas que tendem a vivenciar a moradia de forma fragmentada quando em relação à cidade como um todo.
Repensar os métodos do planejamento urbano brasileiro exige mais do que intervenções pontuais e genéricas: requer políticas públicas personalizadas para cada território, de modo que enfrentem suas desigualdades socioespaciais, sanitárias, econômicas e priorizem o pedestre e a vida comunitária. A urgência desse debate nasce da necessidade efetiva e indissociável da transformação urbana, para que as cidades fujam cada vez mais de lógicas contraproducentes e se constituam com padrões humanos, inclusivos e democráticos.
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