Rosildo Brito/Repórter Educom
Especial para o Bafafá Notícias
"A importância do Festival de Inverno de Campina Grande transcende o conceito de cultura popular". A afirmativa foi feita pelo multiartista Antônio Nóbrega. Com mais de cinco décadas dedicadas à preservação da cultura nacional, a qual ele faz questão de chamar de cultura nativa brasileira, e em plena forma e vigor aos 74 anos de idade, Antônio Nóbrega é um verdadeiro patrimônio vivo das artes cênicas e musicais do Brasil.
Nascido em Recife e radicado em São Paulo — onde fundou, ao lado de Rosane Almeida, o célebre Instituto Brincante —, o artista desafia gavetas: é instrumentista virtuoso, bailarino expressivo, dramaturgo, pesquisador e pensador crítico das nossas tradições e do potencial da arte e da cultura na vida dos indivíduos e do Brasil. Artista de fronteiras fluidas, ele transitou da rigidez da música erudita — como violinista do histórico Quinteto Armorial, ao lado de Ariano Suassuna — para o chão batido, colorido e multifacetado da cultura popular. Antônio Nóbrega foi convidado especial do 51º Festival de Inverno de Campina Grande (FICG), onde apresentou o espetáculo “Recital para Ariano” e a palestra “A Cultura Nativa Brasileira”.
A seguir, em entrevista concedida ao Repórter Educom, da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), o multiartista fala sobre sua passagem pelo festival, sua relação com Campina Grande e a Paraíba, e como busca ressignificar o próprio conceito de cultura popular brasileira. A entrevista se deu logo após a apresentação do espetáculo “Recital para Ariano” que contou com uma plateia lotada. Confira.
Repórter Educom: Para iniciar nosso diálogo, gostaríamos que você nos falasse sobre como foi receber o convite para participar da 51ª edição do Festival de Inverno de Campina Grande.
Antônio Nóbrega: Foi uma honra voltar ao palco do Teatro Severino Cabral e à Campina Grande, onde estive várias outras vezes e uma imensa alegria participar desse festival de grande importância, algo que é marcado pelos seus mais de 50 anos de existência. E fui até medalhado com essa preciosidade (diz ao apontar para a medalha pendurada em seu pescoço alusiva aos 50 anos do FICG) que me foi dada pela mentora desse festival, Eneida. Fico muito feliz e espero voltar aqui em breve.
R.E: O que você achou da recepção do público diante do espetáculo que acabou de apresentar que faz uma homenagem a Ariano Suassuna e como foi o retorno à Campina Grande depois de mais de 10 anos?
Nóbrega: Acredito que as pessoas gostaram desse que é um espetáculo bastante heterogêneo. Eu me senti muito bem com a recepção. Uma montagem que reflete o vínculo artístico e afetivo com Ariano e que exige uma escuta atenciosa do público, sem deixar de lado momentos jocosos e histórias engraçadas. E sempre gosto muito de voltar à Campina Grande.
R.E: Fale-nos um pouco mais de sua relação com Campina Grande, e com a Paraíba onde você iniciou sua formação musical.
Nóbrega: Bem, eu tenho uma relação com Campina Grande extra artística né?, porque eu tenho familiares aqui e quando eu era bem mais jovem nós viajávamos muito pro sertão. E meu pai tem família que veio do sertão para Paraíba que depois emigrou para o sertão cearense e Campina Grande era um lugar de parada. Então desde essa época eu guardo um carinho, um afeto por Campina Grande que sempre teve uma presença na minha vida, no meu imaginário. E esse cenário ampliou-se ainda mais com as minhas vindas aqui para me apresentar nos festivais, especialmente neste festival de inverno. E esse vínculo se amplia para a Paraíba onde eu fiz minhas primeiras apresentações como violinista. Fazia parte de uma orquestra de câmara que na época era residida por pelo José Kaplan, um argentino que morava aqui. De modo que tenho um vínculo muito forte com João Pessoa e, não apenas, mas uma relação muito boa com todo o Nordeste. E não só com as capitais, mas também com várias cidades do interior como Mossoró, Missão Velha no Ceará, Juazeiro, e outras mais. Lugares que vim para conhecer as manifestações populares, de maneira que o Nordeste é um lugar muito precioso dentro de mim.
R.E: Nóbrega, como você avalia a importância de festivais como este em que se encontra participando para a cultura brasileira?
Nóbrega: Eu acho que festivais como esse aqui têm uma importância que transcende o conceito de cultura popular. Eles têm uma importância para a cultura brasileira. E espero que o Festival de Inverno de Campina Grande continue a trazer uma dinâmica cultural para a cidade. Aliás, a cultura, como sempre, é um lugar comum dizer, deveria ter um papel ainda mais vivo na nossa sociedade. E os festivais contribuem para que isso ocorra.
R.E: Além do espetáculo, você fará uma palestra intitulada de “A cultura nativa brasileira”. Poderia adiantar algo a respeito? Do que trata essa cultura especificamente?
Nóbrega: Na verdade, eu ando um pouco em discórdia com o excesso de conceito de cultura popular. Eu acho que deveria se pensar mais na cultura brasileira. Refletir sobre a cultura nativa brasileira que é uma das três matrizes fundamentais — junto com a africana e a portuguesa — que formam o vasto e dinâmico "mundo cultural mestiço-popular brasileiro" construído ao longo dos séculos. Mas, falarei melhor sobre isso, na palestra de amanhã...
R.E: Há informações de que você está prestes a lançar um livro. Tem a ver com essa temática?
Nóbrega. Sim, uma obra em que busco, por assim dizer, historicizar o universo da cultura popular e provocar reflexões sobre o que denominamos de cultura popular.
R.E: Aguardamos ansiosamente então pelo lançamento desta obra que, inclusive, virá num momento muito importante em que o saber tradicional se une à tecnologia e ao mundo digital, redefinindo identidades e ressignificando as próprias tradições populares, sobretudo, no mundo dos jovens. Como você avalia essa realidade?
Nóbrega: Nesse sentido, diria que é muito importante buscar o conhecimento que está para além das ‘maquininhas’. Porque o mundo não está dentro dessas ‘caixinhas’. No geral eu acho que a gente tem de estar um pouco mais atento às ideias né? Às conversas, à troca de ideias. Porque a gente tem as ameaças desses ‘aparelhozinhos’ que a gente usa e que fazem tão bem como agora mesmo nessa entrevista, mas nem sempre. E é muito importante afiar os nossos olhos para o mundo circundante. Para não se fechar no mundo das telinhas. E isso é muito importante porque termina atrofiando a nossa capacidade, inclusive, cognitiva.
R.E: Para finalizar, gostaria que você nos falasse a respeito de onde vem todo esse vigor, essa força cênica ao longo dos seus 74 anos de idade, em atuações que eletrizam as plateias, sem perder o fôlego?
Nóbrega: Para mim é fruto de uma alegria (risos), de um conforto, mas também de um investimento que eu faço. Investimento de um trabalho físico. Eu frequento a academia diariamente. Estou sempre estudando violino. Tenho que trabalhar a voz. Então diria que é uma escolha de vida. E para estar no palco fazendo essa brincadeira toda, eu tenho que dedicar um bom tempo do meu cotidiano para que essa chama ainda continue acesa. Não sei até quando, mas enquanto eu puder prorrogar, eu assim farei.
E assim nos despedimos – mesmo com o desejo de estender pouco mais a conversa - desse multiartista brincante que a todo instante, esbanjava simpatia e uma energia cativante, liberando-o para atender a um grupo de fãs e amigos que aguardavam ansiosamente o fim da entrevista para poder cumprimentá-lo pessoalmente e fazer registros fotográficos para levar de lembrança. Afinal, não é sempre que se encontra com um artista de tamanha grandeza!.
Créditos:
Reportagem: Rosildo Brito
Fotos: Divulgação/Projeto Repórter Educom
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