Leonardo Luiz/Repórter Educom
Especial para o Bafafá Notícias
Na noite da última segunda-feira, 24, o Festival de Inverno de Campina Grande recebeu a cineasta Tizuka Yamasaki para uma sessão especial da Mostra Nacional de Cinema. O público acompanhou a exibição de Gaijin – Caminhos da Liberdade, primeiro longa-metragem dirigido pela cineasta, lançado em 1980. Depois da sessão, Tizuka participou de uma roda de conversa e compartilhou memórias que atravessam sua trajetória pessoal e cinematográfica, passando pela imigração japonesa, pelas lembranças de sua família, o processo de criação de Gaijin, o preconceito e pela experiência de ser uma mulher brasileira construindo uma carreira no cinema.
A presença da cineasta faz parte de uma programação dedicada à sua obra. De segunda a sexta-feira, a Mostra Nacional de Cinema apresenta diferentes filmes de sua trajetória, entre eles Gaijin – Caminhos da Liberdade, Lua de Cristal e 1817: A Revolução Esquecida. Em Campina Grande, a programação também estabelece uma conexão particular com a Paraíba, estado que já foi retratado por Tizuka em Parahyba, Mulher Macho, de 1983.
A sessão especial não se resumiu à exibição de um filme. Foi também uma oportunidade de ouvir a própria diretora falar sobre as histórias que atravessaram sua vida e acabaram chegando às telas. Na plateia, vários cinéfilos e estudiosos do cinema, a exemplo de Romero Azevedo e a organizadora do festival Eneida Agra Maracajá prestigiaram a exibição.
Histórico de Tizuza Yamasaki
Mas a história exibida naquela noite começou muito antes das câmeras. Nascida em Porto Alegre, em 1949, e criada em Atibaia, no interior de São Paulo, Tizuka Yamasaki é filha e neta de japoneses. Dentro de casa, o japonês era a língua falada pela família, enquanto o português passou a fazer parte de sua rotina principalmente na escola. Quando criança, Tizuka ouvia dos avós histórias sobre a chegada da família ao Brasil. Naquele momento, aquelas lembranças pareciam apenas histórias repetidas. Foi somente anos mais tarde, depois de sair de São Paulo para estudar em Brasília, que ela passou a enxergar o país de outra maneira.
A mudança de cidade ampliou sua percepção sobre o Brasil. Ela descobriu um país muito maior e mais diverso do que o universo que conhecia em São Paulo. Foi nesse processo que as histórias contadas pelos avós voltaram à sua memória. Tizuka começou então a pesquisar a própria origem, conversando com pessoas que haviam vivido os primeiros anos da imigração japonesa, ouvindo relatos de famílias e procurando documentos e informações que ajudassem a reconstruir aquela história.
Durante a pesquisa, encontrou uma dificuldade: havia pouco material sobre a imigração japonesa no Brasil. Para construir a narrativa de Gaijin, precisou cruzar as histórias que ouvia dentro de sua própria família com o contexto histórico brasileiro daquele período. A diretora passou a pesquisar também as condições sociais e políticas do país, o movimento anarquista e as consequências da abolição da escravidão, ocorrida poucos anos antes da chegada dos primeiros imigrantes japoneses.
O relato da filha de imigrantes
A história da personagem permaneceu na memória da família e, muitos anos depois, tornou-se uma das bases de Gaijin. Mas Tizuka não queria fazer apenas um filme sobre sofrimento. Na conversa após a sessão, ela explicou que também queria mostrar as diferenças culturais e o processo de adaptação dos imigrantes. A língua, a comida, os costumes e a dificuldade de compreender um país completamente diferente faziam parte daquela experiência.
Com o passar das gerações, os descendentes dos imigrantes foram se adaptando ao Brasil. Para Tizuka, essa mistura ajuda a explicar o próprio país e também mostra que diferentes culturas podem conviver. É uma questão que, segundo ela, continua atual. Décadas depois da estreia de Gaijin, conflitos entre diferentes povos ainda fazem parte das notícias ao redor do mundo. Para a cineasta, a história dos imigrantes japoneses no Brasil pode ser vista também como uma reflexão sobre a convivência entre culturas diferentes.
A experiência de ser confundida com estrangeira também faz parte da história pessoal de Tizuka. Durante a roda de conversa, ela contou um episódio ocorrido durante uma filmagem. Enquanto trabalhava com sua equipe, uma mulher começou a acusá-la de ser estrangeira e de estar roubando algo. Tizuka precisou procurar seus documentos para mostrar que era brasileira. O episódio, que poderia parecer apenas um caso isolado, mostrou para a diretora como o preconceito pode agir de maneira imediata.
A relação da cineasta com o Nordeste
A situação também se relaciona diretamente com o título do filme. Gaijin é uma palavra japonesa utilizada para se referir a alguém de fora, um estrangeiro. No filme, a expressão ganha um significado ligado à experiência dos imigrantes que chegam ao Brasil tentando construir uma nova vida. Na trajetória de Tizuka, a palavra também se aproxima da experiência de ser brasileira e, ao mesmo tempo, ser vista por algumas pessoas como estrangeira.
A relação da cineasta com diferentes regiões do país também apareceu durante a conversa. Tizuka contou que seu primeiro contato mais intenso com o Nordeste aconteceu ainda durante sua formação. A região era muito diferente do Brasil que ela conhecia, e a experiência ampliou novamente sua visão sobre o país. Ela citou a influência de nomes ligados ao cinema paraibano, como Vladimir Carvalho, e contou que o contato com o Nordeste acabou contribuindo para algumas de suas escolhas cinematográficas.
Para ela, as histórias de diferentes regiões podem ter diferenças de sotaque e de costumes, mas muitas vezes partem de experiências semelhantes. Essa percepção também está presente em sua maneira de olhar para a história brasileira. Tizuka defende que a formação do país não pode ser contada apenas a partir dos grupos tradicionalmente destacados nos livros de história. A presença dos imigrantes também faz parte dessa construção.
É por isso que falar sobre os japoneses que chegaram ao Brasil, para ela, também é falar sobre o próprio Brasil.
A trajetória de Tizuka
O caminho traçado por Tizuka até o cinema começou quando ela tinha 21 anos. Primeiro, foi para Brasília estudar Arquitetura. Depois que o curso foi interrompido, mudou de caminho e foi estudar cinema na Universidade Federal Fluminense. Na universidade, teve contato com o cineasta Nelson Pereira dos Santos e começou a trabalhar em produções cinematográficas. Atuou como continuísta e fotógrafa de cena em O Amuleto de Ogum, dirigido por Nelson Pereira dos Santos, e passou a construir sua experiência atrás das câmeras.
Em 1980, veio a estreia na direção com Gaijin – Caminhos da Liberdade. O filme ganhou destaque no Brasil e no exterior, sendo premiado no Festival de Gramado e reconhecido no Festival de Cannes. Para Tizuka, entretanto, a importância da obra não está apenas nos prêmios, mas na possibilidade de colocar na tela uma história que durante muito tempo havia ficado em segundo plano.
Na sua falta, após a exibição e que manteve toda a plateia atenta do início ao fim, a diretora também falou sobre as dificuldades para realizar o filme. Parte da comunidade japonesa não queria financiar o projeto, mas ela insistiu. Para Tizuka, contar aquela história era também uma forma de retribuir às gerações anteriores de sua família.
A força para insistir veio principalmente das mulheres que a criaram. Sua avó ficou viúva e precisou assumir a responsabilidade pela família. Sua mãe também ficou viúva quando Tizuka ainda era criança. Foi dentro dessa estrutura familiar que a cineasta aprendeu a não esperar que alguém lhe desse autorização para ocupar um espaço.
Por isso, quando perguntada sobre o fato de ser uma mulher dirigindo em uma época em que a presença feminina na direção ainda era menor, Tizuka surpreendeu ao dizer que não percebeu o sexismo como seu principal obstáculo naquele momento. Ela simplesmente queria fazer o filme. Anos depois, olhando para trás, passou a compreender que a questão de gênero também fazia parte daquela realidade. Mas, naquele período, sua preocupação estava muito mais concentrada em conseguir realizar o projeto e defender a história que queria contar.
A diretora e a história das mulheres no cinema
A presença de mulheres na sétima arte também não era algo completamente distante de sua experiência. Segundo Tizuka, havia muitas mulheres trabalhando nas equipes de produção. Depois de Gaijin, a diretora continuou explorando personagens e acontecimentos ligados à história brasileira. Em 1983, dirigiu e roteirizou Parahyba, Mulher Macho, baseado na trajetória de Anayde Beiriz, poeta, professora e jornalista paraibana que viveu em um período de intensas transformações políticas e sociais.
A escolha de Anayde também aproximou ainda mais Tizuka da Paraíba. Anos depois, seu cinema voltaria ao estado justamente durante o Festival de Inverno de Campina Grande, onde a diretora foi recebida para apresentar sua obra e conversar com o público.
A exibição de Gaijin no festival, portanto, não foi apenas uma sessão de cinema. Foi também um reencontro entre uma cineasta e uma história que começou dentro de sua própria família e que, ao longo das décadas, ganhou outras dimensões.
A menina que ouvia as histórias da avó sem entender completamente sua importância cresceu, tornou-se cineasta e transformou aquelas lembranças em filme. Mais de quatro décadas depois de sua estreia, Gaijin continua encontrando novas plateias. Em Campina Grande, a sessão terminou com Tizuka falando justamente sobre isso: memória, pertencimento, preconceito, imigração e sobre a necessidade de contar histórias que muitas vezes ficaram fora da narrativa oficial do país.
No fim, a história que começou com uma família japonesa que atravessou o oceano acabou se tornando uma história sobre o Brasil — e sobre quem tem o direito de se sentir parte dele.
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